9.5.10

Desejos

Como fazer quando tudo aquilo que se deseja
parece estar muito distante de nossas
possibilidades?
Como conviver
com essa falta que causa certa amargura no coração
de quem se sabe carente, sente os desej
os e é obrigado a aceitar a
impossibilidade de torná-los concretos?

Ela conhecia bem essa angústia da falta, do desejo e da ambição.
Desde menina de olhos verdes azulados,
trazia consigo esse sentim
ento de desejar, de possuir, de ter ou querer ter,
de ser alguém ou representar algo com um tamanho grau de importância
que ela mesma não sabia como expressar.
Sentia a dor física que essa falta provocava.
Um vazio no peito, uma incapacidade de raciocínio lógico,
uma agonia ou até mesmo uma angústia que a levava
a considerar-se a mais infeliz de todas as criaturas vivas sobre a Terra.
Não era uma carência material,
ou a falta de estruturas mínimas para uma vida confortável, saudável e sadia,
tudo isso era oferecido por seus pais e sua família.
Era uma carência existencial, um momento de distração,
uma desatenção mínima que a cegava sobre tudo aquilo que acontecia ao seu redor.
A conhecida sensação de buraco no peito retornava mais forte,
as angústias triplicavam, o medo do que poderia acontecer invadia sua alma,
seu coração, seus pensamentos e principalmente a sua vida.
Seria medo da morte?
Mas não temia a morte, pelo contrário tinha por ela certa simpatia e agradecimento.
Simpatizava com a certeza de que ia encontrá-la um dia
e lhe era grata por ter levado embora alguns outros,
antes que estes pudessem lhe fazer algum mal.

Temos o péssimo hábito de nunca ou quase nunca,
estarmos contentes com quem somos,
com aquilo que temos e com o que construímos.
Nossas realizações podem até ser importantes e consideradas,
em algumas situações, no entanto, não damos tanto valor a elas,
nos submetemos à opinião dos outros para parecermos normais,
mas será que isso é realmente ser normal?
No fundo não valorizamos tanto assim nossas realizações e conquistas.
Enquanto isso aquele egocentrismo infantil,
aquela analise do mundo e dos outros continua acontecendo.
Pouco deveria nos interessa saber daquele que nunca demos algum valor,
devíamos mais é querer que aqueles, que realmente tem um valor pra gente,
estivessem ao nosso lado em todas as horas ou ao menos por alguns instantes.
Infelizmente poucos conseguem juntar forças para fazer isso.

Conhecemos pessoas que se tivessem vivido um quarto das experiências que vivemos
estariam plenas na realização de seus desejos.
Se analisarmos, veremos que nossos mais profundos desejos e realizações
não passam de hábitos cotidianos para alguns e, mesmo esses alguns,
estão cheios de angústias e preocupações quanto aos seus desejos.
Porque desejamos coisas diferentes.
Então estaria no desejo a causa maior da infelicidade?

Sentia a falta de algo, de um pouquinho a mais para ficar plenamente realizada
e mesmo quando conseguia esse pouquinho, sentia a falta de mais.
A felicidade é como uma droga forte e poderosa
quem dela experimenta não consegue mais largar,
e aqueles que nunca experimentaram já ouviram falar
e se mordem de curiosidade para conhecê-la.
O que poucos sabem é que felizes são os que não a desejam.
Os que aceitam tudo do jeito que é, sem questionamentos, sem dúvidas,
sem receio e sem contestar.
A vida em sociedade foi feita para os que baixam a cabeça,
para os que oferecem o outro lado do rosto depois que um é esmurrado.

Há momentos em que cometemos determinados atos,
nos armamos até os dentes para defender algo,
pode ser um objeto, uma idéia, uma crença...
Ao fazer isso transferimos nosso ponto de referência,
para esse algo, essa alguma coisa.
Nossas atitudes passam a ser tomadas a partir dessa escolha.
Temos o campo de visão reduzido.
O que nos impossibilita de que ver o que acontece ao lado,
e degenera nossa capacidade de pensar.
Com o passar do tempo essas coisas acabam tomando corpo e vida própria,
independentes de nós,
os criamos e tão reais se tornam que muitas vezes,
mesmo sabendo que o ato, o gesto, a atitude, o pensamento, a postura,
ou qualquer outra manifestação não é correta,
ou não cabe naquela situação especifica, nos o cometemos.

Achamos que as coisas são o que são por serem.
Que tudo já foi determinado e que essa determinação que foi ali imposta é correta,
e a mesma deve ser aceita sem questionamentos para não prejudicar o equilíbrio de tudo.
Mas, de qual equilíbrio nós estamos falando?
Deste que mantêm alguns poucos tão felizes e realizados
enquanto deixa outros no mais profundo vazio?
Qual é o caminho correto que todos nós devíamos seguir?


Inspirado em um texto de Christopher Jr.

1 comentários:

Anônimo disse...

Meeeeeeu, que texto enorme, e lindo *-* amei, nossa como nao cansa de escrever ? Adoro essas questões que tu deixa em aberto pra refletirmos *-*

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